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COLOQUEI MINHA FAMÍLIA NA DROGA; DO PORÃO.
por Angela E. C. Herrera*

Este estudo foi realizado por uma assistente social, com formação em terapia familiar, no centro de reabilitação dentro da própria empresa privada, tendo como foco principal a recuperação de doenças ocupacionais, como as afecções musculares relacionadas ao trabalho, dependência química, estresse ocupacional, depressão e fibromialgia. Constituem a equipe do centro de reabilitação, médico do trabalho, fisoterapeuta, fonoaudióloga, assistente social, professor de ginástica laboral, médicos fisiatra e ortopedista.

Tal empresa familiar está localizada no Centro de São Paulo, possui aproximadamente 2000 funcionários que atuam na área de seguros de  saúde e de vida, em sistema de rodízio. A empresa oferece vários benefícios aos seus funcionários, como bolsa escola e vales transporte, refeição e de alimentos, além do seguro saúde, sem contar com as promoções vinculadas às atividades de lazer. Tem como meta, manter-se na primeira posição do “ranking” em seguros de saúde e de conquistar novas posições em vida e previdência.

O presidente acredita que os seus funcionários devem e podem sempre “dar mais” (ultrapassar seus limites). Em contrapartida, os funcionários trazem em sua história familiar, uma bagagem de sofrimento, além do compromisso de prover o sustento da família, uma vez que a maioria (70%) é composta de mulheres, cujos maridos estão desempregados. Ao ingressarem na empresa, ficam envolvidos e inebriados por tantas benesses (alguns rituais: café da manhã, almoço com o presidente, festa de Natal, bloco de carnaval), o que desperta neles os sentimentos de lealdade e gratidão, induzindo-os a corresponder à expectativa da empresa. Ao adoecerem, são acometidos de um sentimento de ingratidão para com a empresa, acrescido da sensação de incompetência pessoal. Consequentemente há dois pólos, o da doença orgânica e o do sofrimento psíquico, pelo fato do funcionário não se sentir a altura da missão que lhe foi confiada.

Este estudo objetivou promover a saúde dos funcionários, tendo como premissa a interação sistêmica da tríade família, funcionário e empresa. Sua condução justifica-se pela percepção de que determinados padrões de comportamentos familiares se repetem no ambiente de trabalho.

Ao iniciar sua atuação na empresa, em 1999, a autora observa que 150 funcionários estão em acompanhamento no Centro, sendo que desses, 50 encontram-se afastados sem tratamento (AFAS), 21 afastados em tratamento (AFAS/TRAT), enquanto 79 permanecem em tratamento, mas trabalhando (TRAT/TRAB) (seqüência 1, azul). No ano seguinte, esses valores passam a ser, respectivamente, 48, 42 e 118, o que demonstra o significativo aumento de adesão dos funcionários ao tratamento, sem interrupção do trabalho (seqüência 2, rosa) (Figura 1).
Figura 1: Valores absolutos da posição de funcionários nos anos de 1999/2000

A análise do caso clínico consistiu no atendimento de um paciente, G. (34 anos), primogênito, alcoolista, cocainômano, divorciado, pai de um filho de 8 anos, que mora com a mãe. G. era filho de pais alcoolistas, com quem conviveu até os 4 anos de idade. Após o falecimento do pai, decorrente do vício, passa a morar com a avó paterna M. No período do atendimento, sua família era composta, além de M. (84 anos), por Z., tia (60 anos), Z., tia (58 anos), P., tio (64 anos) e P., tio (62 anos). É encaminhado ao centro por seu supervisor, devido ao seu alto índice de absenteísmo e conduta displicente em suas funções. Ao apresentar-se, G. relata depressão, além do uso abusivo de álcool e cocaína. O tratamento de terapia familiar sistêmica breve, cerne do desenvolvimento deste trabalho, ocorreu em 10 sessões mensais gravadas em fita de vídeo, com a anuência da família, visando melhor elucidação do caso, com aquisição de novos conhecimentos científicos. As avaliações iniciais foram realizadas para a elaboração do projeto de tratamento terapêutico, que se efetivaria em 90 dias, podendo estender-se por mais 30 dias, no máximo.

Com a ameaça de G. perder o emprego, a assistente social solicitou à gerência a possibilidade de reabilitar o paciente, vislumbrando sua recuperação, com a ajuda da família. Após dois meses de atendimento de ambos (paciente e família), o gerente reconhece a melhora de G., engrandecendo sua capacidade laboral e colocando-se à disposição para cooperar no tratamento, que é concluído após 6 meses, culminando com a alta de G. A retomada da capacidade produtiva e do bem estar de G. deu-se, por meio da construção do genograma familiar, em que se observou o grau de lealdade do paciente à sua família, repetindo padrões através de gerações, incorporado por sua avó M., que trazia no bojo da dinâmica familiar, o segredo de ter sido obrigada a casar-se com o cunhado viúvo, com apenas 12 anos de idade. Caso recusasse, passaria o resto dos seus dias no PORÃO! A autora trabalhou com a hipótese sistêmica de que a avó M. promove uma vingança sobre os homens, permitindo o uso abusivo de substâncias químicas, em sua própria casa, alegando ambiente seguro. Interessante ponto a ser ressaltado, é o de que as mulheres dessa família, ao contrário dos homens, mantinham-se imunes ao vício, aparentando bem estar físico e psíquico.

A excelência deste estudo deve-se à possibilidade de mensurar que as várias crises familiares (matriz familiar) encontram suas ressonâncias nas dinâmicas das instituições (matriz institucional), corroborando as conclusões obtidas por Bowen (1978), psiquiatra americano e terapeuta familiar sistêmico, que cita que “o que é familiar emocional em nós é despertado em qualquer instituição. Além disso, os modelos dos sistemas emocionais são os mesmos, sejam eles familiares profissionais ou sociais, estando à única diferença no seu grau de intensidade”.

Desse modo, o nível de aproveitamento do tratamento deveu-se à parceria entre os três sistemas (família, funcionário e empresa), bem como o processo desenvolvido pela equipe interdisciplinar, parte do centro de reabilitação.

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