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A Intersecção das matrizes Institucionais, Identidade, Familiar, Institucional: Uma dança ou uma batalha para o Serviço Social?
por Sebastião Alves de Souza*

Introdução
A possibilidade de trabalhar na intersecção das matrizes sociais, indivíduo, família e instituição, surgiram com a criação do Centro de reabilitação e recuperação readaptação funcional das Companhias de seguro saúde, lançando mão dos conceitos de Matiz de identidade (Minuchin, 1988), Matriz Familiar (Groismam, 1996) e Matriz Institucional (Souza & Herrera, 2003), conceitos esses, que serão desenvolvidos o discorrer do trabalho.
O Centro de reabilitação nasceu de um sonho de uma Assistente Social C.M em 1999, em trabalhar a saúde dos funcionários em face de crescente evolução de patologias relacionadas ao trabalho, tais como: Ler/Dort álcool e outras drogas, depressão, estress ocupacional, desencadeando várias doenças como, hipertensão arterial, diabetes, fobias, síndrome do pânico.

Tal empresa familiar está localizada no bairro de Centro de São Paulo, possui aproximadamente 2000 funcionários que atuam na área de seguros saúde e de vida, em sistema de rodízio. A empresa oferece vários benefícios aos seus funcionários, como bolsa escola e vales transporte, refeição e de alimentos, além do seguro saúde, sem contar com as promoções vinculadas às atividades de lazer. Tem como meta, manter-se na primeira posição do “ranking” em seguros saúde e conquistar novas posições em vida e previdência.

Ao iniciar sua atuação na empresa, em 1999, a autora observa que 150 funcionários estão em acompanhamento no Centro, sendo que desses, 50 (33%) encontram-se afastados sem tratamento (AFAS), 21 (14%) afastados em tratamento (AFAS/TRAT), enquanto 79 (53%) permanecem em tratamento, mas trabalhando (TRAT/TRAB).
No ano seguinte esses valores passam a ser, respectivamente, 48 (23%), 42 (20%) e 85 (57%) o que demonstra o significativo aumento da adesão dos funcionários ao tratamento, sem interrupção do trabalho.
E no ano de 2001 os dados foram os seguintes: 21(15%), 29 (23%) e 96 (64%).

 

FIGURA 1: Percentual da posição no ano de 1999
FIGURA 2: Percentual da Posição no ano de 2000
FIGURA 3: Percentual da Posição no ano de 2001                                                                                                                                                        
1999
                          2000

 

2001

O trabalho desenvolveu-se dentro da própria empresa com a anuência do Diretor Presidente e o gerente de RH, sendo que parte da Equipe era de empregados da empresa e parte da Equipe era profissionais liberais terceirizados.
A abordagem no tratamento das patologias relacionadas ao trabalho se constituiu de uma equipe interdisciplinar composta: de três Assistentes Sociais, sendo que C.M era a Coordenadora, uma Médico do Trabalho, duas Fisioterapeutas e uma Assistente Social com Formação em Terapia Familiar Sistêmica, um Psicólogo com Formação Sistêmica e, um professor de Educação Física, com especialização em ginástica laboral e uma Fonoaudióloga.

 Equipe Interdisciplinar desenvolveu seu trabalho a partir da Metodologia Sistêmico-Cibernética, o que possibilitava a leitura, diagnóstico e intervenções sistêmicas nos vários contextos relacionais, onde os sintomas emergiam com maior intensidade na empresa e na família. O que consequentemente ajudou a Equipe ter uma melhor compreensão da problemática em questão e contribuiu em muito na recuperação e reabilitação do funcionário.

Corpo do Trabalho

Face ao número de funcionários afastados do serviço, aproximadamente 150, e o aumento significativo de auxílio doença e acidente de trabalho e o absenteísmo, foi sugerido e aceito pela empresa a criação do centro de Reabilitação para a recuperação das patologias relacionadas ao trabalho, sendo que no início o trabalho, baseou-se na patologia LER/DORT, face o aumento da incidência da referida patologia, que impossibilitava os funcionários a desenvolverem suas funções, e ao mesmo tempo em que acarretava prejuízos significativos para a Empresa.

Ao iniciar o trabalho no Centro de Reabilitação, as demandas de novas patologias emergiram e foram sendo absorvidas pela equipe, que também se desenvolvia incorporando a nova metodologia do trabalho.
Depressão, dependência química, fobias, síndrome do pânico, estress ocupacional, desencadeando doenças como hipertensão arterial e diabetes eram avaliadas e tratadas pelos respectivos profissionais.
Várias categorias de trabalhadores têm sido cada vez mais
atingidas pelas patologias relacionadas ao trabalho. Essa situação injusta merece atenção especializada para sua prevenção, reabilitação e recuperação.
Desse modo torna-se necessário não somente controlar e propiciar as condições ideais para o trabalhador, passo traduzidos como uma prevenção primária, bem como, disponibilizar as atividades de prevenção nos seus outros dois níveis, ou seja, secundário e terciário, enfoque totalmente inédito, que é a proposta deste projeto.
As patologias relacionadas ao trabalho constituem grande preocupação para a sociedade como um todo e em vista disso tem sido objeto de estudo entre os entre os pesquisadores de diversas de conhecimento.

Essas patologias não podem ser classificadas por meio da visão simplista, mas sob a ótica interdisciplinar sistêmica em que são enfocados, os aspectos fisiopatológico social, econômico e psíquico o que muito contribui na recuperação dos funcionários.

A avaliação interdisciplinar das patologias relacionadas no trabalho procura encontrar o melhor diagnóstico, bem como a reabilitação e recuperação dos funcionários acometidos por essas patologias através de uma proposta intervencionista, e que os vários profissionais fazem convergir olhares e conhecimentos diversos, com a finalidade de abordar profundamente a complexidade que caracterizam essa patologia.

As patologias relacionadas ao trabalho são extremamente onerosas e incapacitantes e ainda constituem o maior problema nas sociedades industrializadas.

Geralmente tornam-se crônicas, com conseqüências altamente negativas para o indivíduo, família e empresa.
Além disso, as implicações econômicas para a companhia empregadora, bem como para a sociedade são evidentes.
Os registros dessas doenças no Brasil são baixos visto que só a partir da metade da década de 80 houve a emergência dos serviços voltados à saúde do trabalhador.

Segundo Buschinelli (1993) a Região Sudeste detém 75% de todos os casos de doenças relacionadas ao trabalho.
Assim sendo a implantação de um Centro em que profissionais diversos, fossem treinados não somente para prevenir, mas também para tratar e recuperar esses funcionários pacientes revela-se como urgente necessidade social, no resgate da qualidade de vida pessoal e profissional dos trabalhadores.

Como uma Assistente Social com formação em Terapia Sistêmica, essa abordagem possui ferramentas e recursos para fazer leituras, diagnósticos e intervenções breve junto ao indivíduo, à família e instituições. A criação e desenvolvimentos dessas ferramentas e s recursos sistêmicos permitiu me colocar na prática, a teoria e o conhecimento gerado por toda essa empreitada desenvolvida no Centro de Reabilitação

O portador de determinadas patologias era encaminhado ao Centro por seus supervisores, coordenadores, gerentes e médicos de outras unidades da Empresa. Ao chegar ao Centro de reabilitação era feito uma entrevista e uma avaliação da queixa do funcionário, com a duração de aproximadamente 30 minutos, após o que, seu prontuário era encaminhado para a reunião semanal da equipe interdisciplinar do Centro de reabilitação, para a discussão clínica e o desenvolvimento do projeto terapêutico para aquele funcionário.

Em se tratando da parte psicológica do projeto terapêutico do paciente era de minha responsabilidade minimizar ou eliminar o sofrimento psíquico referente àquela patologia. Utilizando o Método Sistêmico - Vincular, o qual, possibilitou-me compreender o paciente, a partir de sua história e o contexto, no qual estava inserido.

Considerando a intersecção das três matrizes sociais, sendo a Matriz de identidade – “a experiência humana de identidade tem dois elementos: um sentido de pertencimento e um sentido de ser separado. O laboratório em que esses ingredientes são misturados e administrada é a família”

(Minuchin, 1988), Matriz familiar” uma estrutura que vai sendo organizada desde nascimento como um caleidoscópio que combina vários pigmentos de cor e que, ao chegar à adolescência, estará definida numa determinada combinação de formas e cores, sendo a origem e o arcabouço, onde são apreendidas e experienciadas todo o padrão de funcionamento psíquico do indivíduo e os seus processos relacionais, Matriz institucional (Souza, 2003),” o ser humano é o único ser que pré-existe, nasce, cresce, vive e morre como um ser institucionalizado. A sua pré-existência o coloca no imaginário de seus futuros progenitor (es), o que automaticamente lhe designa nome, família, religião, crenças, cultura e pátria.  “É impossível não se institucionalizar”.

O atendimento do funcionário portador de alguma patologia e sua família dentro da empresa possibilitou-me observar o padrão de funcionamento familiar e as suas várias dinâmicas patológicas não elaboradas. O método sistêmico – vincular de trabalho contribui  para a elaboração dessas dinâmicas, as quais  tinham suas ressonâncias no contexto da empresa, onde eram reativadas e reatulizadas. O surgimento de determinados conflitos na empresa demonstrava  que personagens da Matriz Familiar eram reencenados  no dia-a-dia   da empresa, o que  potencializava essas patologias, ao mesmo tempo,  que aumentava o sofrimento psíquico do funcionário, no confronto em situações semelhantes na empresa. 

 A partir do entrelaçamento dessas três matrizes foi possível ampliar a percepção sobre as doenças relacionadas ao trabalho com a contribuição do olhar sistêmico, e perceber as várias dinâmicas patológicas que eram reatulizadas e reencenados, através dos padrões repetitivos relacionais, trazidos das famílias de origem e que se desencadeavam na Empresa. 

Aplicabilidade do referido método e o trabalho concomitantemente com as três matrizes sociais, tem seu embasamento teórico e prático, a partir do referencial teórico de Bowen (1978), ao citar “o que familiar em nós”, será r reatualizado em qualquer instituição ao for pertencermos, o que vai variar é o grau de intensidade. 

Pelo exposto acima, conclui-se que as empresas devem preocupar-se na criação de Centro de reabilitação, como a finalidade, não só de reduzir custos envolvidos com ações trabalhistas bem como, os prejuízos resultantes dos dias de trabalhos perdidos. Além dos custos, há de se considerar a imagem pública adversa que o ambiente prejudicial pode gerar para o trabalhador.       

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