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“Objeto de amor estragado”: O nascer em um lugar errado ou o preencher do “vazio” dos cônjuges indiferenciados.
por Sebastião Alves de Souza***

 Este artigo segue algumas características que norteiam os seres humanos, que podem ser as mesmas, universais ou singulares. As universais seguem o padrão filogenético – similaridades e caracteres encontrados no processo evolutivo biológico.

 As singulares, encontradas na espécie humana, emergem do nosso padrão ontológico – o desenvolvimento evolutivo a partir da interação com o meio ambiente, desencadeando o processo de adaptação e aprendizagem, condição “sine quo non” para a sobrevivência da espécie.

 Duas serão as características que elegerei para discorrer neste artigo. A primeira é o desafio que acredito pertencer a todo o humano que deseja crescer e evoluir. A segunda é o desejo de ser reconhecido pelos meus pares como um “um objeto de amor não estragado”, que fica à mercê daqueles que desejam crescer; a procura do que seria   o “sentido da vida”.

 Não fiquem assustados se esse desejo  faz parte do meu instinto de preservação, porque segundo próprio Freud é quase uma unanimidade que os seres humanos, em sua maioria, nasçam, cresçam, trabalhem, evoluam, somente para se sentirem “amados e reconhecidos”.

 Enfim, essa introdução faz de algumas reflexões desenvolvidas no trabalho de supervisão clínica, na qual surgiu a expressão “objeto de amor estragado  esse paradoxo verbalizado em atendimento clínico, faz emergir  alguns questionamentos, pois o nosso sistema de crenças, nos faz acreditar que  na maioria das experiências, o “amor” é sempre algo bom.

 Aqui se instala o cerne do nosso paradoxo.  Como algo  ser bom e estragado, ao mesmo tempo?

 Após essas reflexões e questionamentos surgiu a seguinte questão em minha mente.  Nascemos no lugar errado ou preenchemos o “vazio” dos cônjuges indiferenciados?

 Penso que teríamos que discorrer sobre  dois vieses para o desenvolvimento desse pensamento. No primeiro viés,  que o sentimento de nascer no lugar errado é real e original; é um “sentimento de inadequação” (Heidegger, 1927), uma sensação de cair de pára-quedas, ou estar em uma estação de trem, esse para, você entra e o trem embala novamente, caso você pule, você morrerá.

 “Afinal, todos nós ao nascermos, pegamos carona no “trem da vida”, você tem dúvida disso” ? Não vamos imaginar que, só porque nascemos, a vida vai parar.

 Não podemos inflar o nosso ego com tamanha prepotência,  ao ponto de acreditar que, a história da vida dos seus progenitores deixam de seguir o seu curso aparentemente normal quando nascemos.

 Após algum tempo de convivência com seus progenitores,  nós descobrimos  pertencendo a uma família, nome, sistema de crenças, regras implícitas e explícitas, mitos segredos, alianças, colisões, uma comunidade, enfim várias construções do seu modo de ser que você não escolheu.

  Bertalanffy (1976) relata “todos nós somos vítimas da força da história” nascer é ou não é um sentimento de inadequação pelo menos uma sensação de estranheza de pego o “trem  da vida errado”. Partindo dos pressupostos que o ser humano se desenvolve para adquirir autonomia e liberdade.

 Nascer em uma família na qual, temos toda essas bagagens para carregarmos, sem o nosso consentimento, são no mínimo restrições e limitações  conferidas a todos seres humanos  imposta pelas  circunstâncias  do  nascimento.

 O que como conseqüência, gera uma semi-liberdade e uma semi-autonomia.

 O que fazer para pertencer a uma família e ao mesmo tempo construir a minha individualização?

 O segundo viés nos leva a imaginar como escapar de ser um “objeto de amor estragado” se tenho que  cumprir a missão a mim designada pelo meus progenitores, que se casaram e que na maioria das vezes  permanecem  fusionados  às suas famílias de origem.

 Se, deixo de cumprir a minha missão, torno-me um fracassado diante dos olhos dos meus pais. Se cumprir os desejos e legados dos meus; torno-me invisível aos meus olhos e não desenvolvo a minha autonomia e individuação.

 Se sou leal aos meus pais,cegamente,transformo-me um “zumbi-ambulante” ou um “morto-vivo“ e conseqüentemente, passo a ser  um ser  inautêntico.

  Afinal, ninguém consegue servir a dois senhores ao mesmo tempo (família de origem e família atual ou, o próprio individuo). Aprenda a dançar enquanto é tempo, pois após esse pequeno trecho da exposição, o estado de seu “objeto de amor”, já está entrando em decomposição.

 O que fazer com o grau de lealdade e gratidão que tenho pelos meus pais?  Foram eles que me  ensinaram as primeiras lições de vida e, que por estarem em débitos com suas famílias de origem, fazem uma grande confusão de seus materiais inconscientes e, portanto, não-elaborados psiquicamente, e que por vezes transformam a missão, a lealdade e a gratidão em verdadeira “dívidas emocionais”.

 Então, não tem saída?

 Tem saída! Experimente ser um pouco mais assertivo, se conseguir ótimo, ou seja, tente “dizer não aos seus pais sem se sentir culpado” e “dizer sim,  sem ficar  com raiva’. Difícil, não?

 E agora sim você, enquanto “objeto de amor”  já não está mais em estado de decomposição e sim caminhando para um estado de putrefação.

 Nesse momento,  perguntei-me: Quais seriam as saídas?

 Na minha opinião, duas seriam as mais importantes: a primeira é quando você consegue re-significar e reconstruir os vínculos desenvolvidos de sua história familiar, como aqueles que, em alguns momentos foram obstáculos difíceis de serem transpostos, trazendo vários sofrimentos orgânicos e psíquicos em sua vida.

 Transformar sofrimentos em competências e habilidades para lidar com novos projetos de vida é uma arte.

 Como dizia, o velho Sartre “o importante não é o que fazem de nós, mas sim o que fazemos daquilo que fizeram conosco”.

 E, a segunda saída, não menos importante que a primeira, é a possibilidade de nomear o outro dentro de um processo de alteridade, no qual o mesmo surge como uma fonte de aprendizagem e evolução, experiências possíveis em processo relacional, revestido de um certo grau de maturidade emocional.

 Paul Watzlawicki vai definir o  processo acima, como sendo um das características dos sistemas abertos, a que chamou de “propriedade emergente”, através da qual o relacionamento dos seres humanos é sempre uma composição e não uma somatória de suas características de personalidades individuais.

 Como tal, na soma é possível predizer o resultado, porém na composição, o processo da relação é sempre um produto novo que emerge, fruto das várias aprendizagens e experiências vividas, é sempre algo novo. É impossível não evoluir.

 “Objeto de amor estragado” ou não, você sobreviveu, agora o restante é com você, coloque esse seu material psíquico em prol de um processo de co-evolução, ou seja, conte com as parcerias que estão ao seu ao lado e assuma a responsabilidade, de que essa é uma escolha sua, e que no momento é o melhor que você pode fazer.

 

 ** Terapeuta de casal e família. Formador da Escola Vinculo Vida.

                             

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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